domingo, 4 de Novembro de 2007

Convulsões saudosistas

Da lâmpada morta já não havia réstia de calor. Tudo repousava em silêncio, ouvia-se o contador de água a cantarolar baixinho num qualquer esconderijo das ocas paredes. A madeira, de vez em quando, revolvia-se denunciando a existência de mobília nos cantos moribundos. O quarto, sufocado pelos dias lentos, olhava à janela por uma brisa suave que pudesse trazer de volta alguma vida àquele despojo, onde nem o tecto tinha onde cair morto. No roupeiro, as traças não se coibiam de entrar pela convidativa naftalina já gasta, e a roupa deixava-se comer pela sua inutilidade. A um canto, criando rugas e perdendo o brilho ao tempo, dormitava um espelho que se esquecera de reflectir cores nos embaciados olhos. A porta, madeira cereja, virava as costas aos tristes aposentos, e olhava de frente o profundo corredor, até à saída, rasgada de cartas que se espalhavam ao longo do frio mosaico.

Adormecera a ler, e acabava de acordar no escuro da cama, sob os lençóis mal tratados que se aproveitavam do seu lânguido corpo suado. O despertador alarmava para a hora tardia, mas tinha a vista desfocada e chorosa para conseguir lê-la. Não interessava... A cabeça latejava a comando do maestro coração, e as tonturas eram demasiado intensas para que pudesse levantar-se e saciar a sede dos seus lábios gretados. Tacteando com os dedos o restrito espaço da sua cama, conseguiu sentir o espesso do vomitado que o colchão bebia, lentamente…
Tinha de combater aquele estado para se levantar e limpar aquilo rapidamente antes que… Gasp! Um metálico intenso apoderara-se da sua boca mesmo antes de se lançar nos lençóis. As convulsões que não paravam iam dando de comer aos lençóis secos, que se serviam de tamanho banquete, aos sulcos, tal qual selvagens esfomeados! Naquela cama, solitário, Sebastian não haveria de ter descanso nem esta noite, nem nas que se avizinhavam… Enquanto a sonora tosse se dissipava no eco do quarto semi-vazio, dolorosas cefaleias aliadas às magníficas tonturas dardejavam o rapaz que se deixava flutuar no aquoso da sua cama.

Os minutos passavam, acompanhando o silencioso massajar de têmporas, e os primeiros e suaves raios solares ameaçavam entrar no quarto e revelar os podres da noite. Já se tinha habituado ao cheiro nauseabundo que presidia no seu quarto e, no doce silêncio da noite que se dissipava começavam a romper alguns pardais, cujo chilrear o obrigava a suster a respiração e a cerrar os olhos com mais força. Os raios de sol, discretos, percorriam sinuosamente o seu caminho pelo quarto, derrubando os obstáculos, em direcção ao triste corpo abandonado, na cama inundada de dissabores.

A luz solar pesava-lhe na pele e tinha, agora, ainda mais dificuldade em abrir os olhos. Oh!, quem lhe dera poder tapar a vista com as vestimentas da cama. Mas, sabia-o muito bem: perturbar a imobilidade do seu corpo seria uma facada de dor e desconforto. A pele empapada e o estômago gritando por auxílio, a anémica fraqueza contorcendo-lhe os músculos, e os lábios ainda secos… Parando por um momento, e esquecendo como o seu físico lhe pesava, viu tudo com mais clareza no vasto claro dos seus olhos cerrados. Recordava-se de ser uma criança desafogada de preocupações. Corria com os amigos, e os berlindes tinham outra cor; o chiar dos baloiços, e o riso das namoradas ao fundo, tal qual voz de boneca; os pais sorriam-lhe e os avós apertavam-lhe as bochechas até ficarem mais rosadas que era habitual; o vento não fazia sentido e o Sol não era uma estrela; a água molhava e os doces sabiam bem! Ah! Sim… As cores tinham outra cor, e os cheiros outra intensidade. Tudo era tão simples. Tão simples (tão!) que até a Sra.Morte!, vestida de preto, nos sorria docemente, no teatro da escola. Suspirou. Voltou à Terra, mas não tombou. Mais fundo do que se encontrava era impossível, e uma vez liberto do coma colorido, Sebastian sabia-o bem.

- Kafka será lembrado, eu não…

M83 - Lower Your Eyelids to Die With